Fronteiras étnicas e a reinvenção da autonomia Quilombola na era digital

Estar no Quilombo da Marambaia é habitar uma fronteira. Não uma fronteira geográfica apenas, mas um espaço de encontro, negociação e disputa entre diferentes formas de conhecimento, de existência e de relação com o mundo. Desde 1999, nós de Koinonia acompanhamos esta comunidade em sua longa trajetória de luta pela garantia de seu território, uma conquista fundamental para a reprodução de sua vida social, cultural, econômica e política. A titulação do território representou um marco importante de justiça histórica, mas os desafios da autonomia quilombola continuam a se reinventar diante das transformações contemporâneas.

Ilha da Marambaia

Nossa presença na Ilha da Marambaia, em uma oficina combinada entre a Fundação Heinrich Böll, KOINONIA, Data Labe, Coding Rights e a Associação da Comunidade1, dialogou com uma dimensão histórica do nosso trabalho: atuar na fronteira entre os saberes produzidos pela sociedade dominante e os conhecimentos construídos pela própria comunidade. Essa fronteira não é um limite rígido, mas uma zona de interação permanente. Os moradores da Marambaia vivem simultaneamente a experiência da tradição e da inovação, articulando saberes ancestrais sobre o território, a pesca, a agricultura, a memória e o parentesco com o uso de telefones celulares, redes digitais e acesso à internet.

Entretanto, essa relação não pode ser compreendida apenas como um processo de incorporação tecnológica. Historicamente, os povos quilombolas têm enfrentado diversas formas de colonialismo que buscaram desqualificar seus conhecimentos, apresentar saberes externos como superiores e transformar suas formas de vida em algo considerado atrasado ou inadequado à modernidade. Hoje, parte dessas dinâmicas reaparece no universo digital, no qual plataformas, algoritmos e fluxos globais de informação frequentemente se apresentam como neutros e universais, embora carreguem visões de mundo, interesses econômicos e relações de poder específicas.

É nesse contexto que emerge uma questão central: como acessar novos conhecimentos sem ser colonizado por eles? Como incorporar tecnologias, informações e formas de comunicação globais sem renunciar à autonomia construída a partir da experiência histórica do território? A resposta não está no isolamento, mas na capacidade crítica que comunidades como a Marambaia possuem de reinterpretar o que vem de fora a partir de suas próprias referências culturais.

Os conhecimentos tradicionais não são relíquias estáticas do passado. Ao contrário, constituem sistemas vivos de produção de saber, capazes de dialogar, selecionar, adaptar e ressignificar elementos externos sem perder sua coerência interna. Ao longo da história, quilombos sobreviveram justamente porque desenvolveram a capacidade de transformar influências externas em recursos para fortalecer sua própria autonomia. Sua força não está em permanecer imutáveis, mas em atualizar continuamente suas práticas e conhecimentos sem diluir sua identidade coletiva.

Foi a partir dessa perspectiva que realizamos duas oficinas: a do Mapa dos Territórios da Internet, um projeto desenvolvido pela Coding Rights, com colaboração da Rede Transfeminista de Cuidados Digitais e, também, uma sobre desinformação, realizada pelo DataLabe, uma organização nascida no conjunto de favelas da Maré, no Rio de Janeiro, que trabalha com geração cidadã de dados. Discutimos conjuntamente as oportunidades oferecidas pela internet, como o acesso à informação, a comunicação com outras comunidades, a defesa de direitos e a ampliação de redes de solidariedade. Mas também refletimos sobre os desafios associados a esse ambiente, como a circulação de desinformação, a vigilância digital, a dependência tecnológica e os impactos ambientais associados à infraestrutura que sustenta o mundo conectado.

Essa reflexão nos levou ao campo da justiça ambiental. Muitas vezes pensamos a internet como algo imaterial, mas ela depende da extração de minérios, de grandes centros de processamento de dados, de elevadas demandas energéticas e de cadeias produtivas que produzem impactos sociais e ecológicos em diversos territórios do planeta. Assim, mesmo comunidades aparentemente distantes dos grandes centros urbanos estão conectadas a processos globais que afetam diretamente a natureza, o clima e as condições de vida das populações.

A perspectiva da justiça ambiental nos ajuda a compreender que os benefícios e os custos dessas transformações não são distribuídos igualmente. Enquanto alguns grupos concentram os ganhos econômicos e tecnológicos, outros suportam os efeitos da degradação ambiental, da exploração dos recursos naturais e das mudanças climáticas. Para comunidades quilombolas, cuja existência está profundamente vinculada à integridade de seus territórios, essas questões assumem um significado ainda mais profundo. Defender o território é também defender formas particulares de conhecimento, de cuidado com a natureza e de produção da vida.

A experiência da Marambaia demonstra que não existem comunidades isoladas do mundo contemporâneo. Ao contrário, elas ocupam posições privilegiadas para compreender as conexões entre colonialismo, tecnologia, economia global e justiça ambiental. Seus moradores vivenciam diariamente a tensão entre preservação e transformação, autonomia e integração, tradição e inovação. É justamente nessa condição de fronteira que produzem respostas criativas para os desafios do presente.

A missão da Intersecção entre lugares de fala, colaboração e autonomia

Estar no território reafirma a importância de construir diálogos interculturais que não tratem os saberes tradicionais como algo a ser superado, nem os conhecimentos externos como verdades universais incontestáveis. O desafio é produzir encontros em que diferentes formas de conhecimento possam dialogar em condições de respeito e reciprocidade. Nessa perspectiva, a autonomia não significa rejeitar o novo, mas desenvolver a capacidade de decidir criticamente o que incorporar, de que maneira incorporar e para quais objetivos.

Essa continua sendo uma missão fundamental do trabalho de Koinonia: fortalecer espaços de reflexão e troca nos quais as comunidades possam compreender os processos globais que afetam suas vidas, ao mesmo tempo em que reafirmam a legitimidade de seus próprios conhecimentos. Afinal, a verdadeira justiça, seja ela territorial, ambiental ou digital, depende do reconhecimento de que os povos quilombolas não são apenas destinatários de saberes produzidos em outros lugares, mas produtores de conhecimentos indispensáveis para imaginar e construir futuros mais justos, sustentáveis e plurais.


Referências bibliográficas e inspirações teóricas

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Notas de rodapé.
  • 1

    [1] A Fundação, KOINONIA, DataLabe e a Associação da Ilha (ARQIMAR), - vejam-se os links do texto para mais informações -, desenvolveram entre os 3 e 5 de julho de 2026, a oficina “Eleições, Fake News e Impactos das Novas Tecnologias nos Territórios Quilombolas”